3 anos, 3 meses e 13 dias depois, resolvi que já era hora de 'resgatar' minhas coisas. Liguei para saber se poderia aparecer naquela que, um dia, já foi a 'minha casa'.
- Aconteceu algo? Tá tudo bem? (voz assustada)
- Oi. Sou eu. (silêncio) Eu esperava um alô. Mas, sim, tá tudo bem.
- Vi seu nome no visor, fiquei preocupado. Caramba! Imaginei coisas ruins.
- Foi mal. Tá tudo bem, sim. (silêncio) Queria minhas coisas de volta. Posso ir pegá-las?
- Suas coisas? De que coisas você está falando? Do apartamento?
- Não. Dos livros, dos CDs, das roupas e do tablet... Acho que foi só o que ficou, né?
Pronto! Fiz a pergunta errada. A respiração do outro lado da linha se alterou. Pude imaginar a fúria naquele par de olhos azuis. Não! Não foi só o que ficou. Não para ele. Em cada objeto deixado para trás ficou uma história. (A penúltima gaveta da cômoda deve guardar um monte delas... Será?)
Toquei o interfone. Prédio antigo e sem porteiro. Portão manual. Ele é obrigado a descer. Não há fúria nos olhos azuis. Há desconfiança. Ele me estende a mão.
- Oi. Tudo bem com você?
- Tá. Sobe.
Um lance de escadas. Porta do apartamento aberta. Por alguns segundos contemplo a sala. Está tudo exatamente igual. Não há saudades. Não há boas lembranças. Há, apenas, um ar fúnebre, apesar do colorido do ambiente (laranja da parede, verde do sofá, roxo e cinza da cortina - casa de daltônico). Aqui jaz algo... Ou alguém... Sinto-me estranha. Uma estranha num ninho que já foi meu. Isso me causa um arrepio. Entro. Atravesso a sala. Estou seguindo-o. Passo pelo corretor. À esquerda, a cozinha. Tudo igual. À direita, o quarto menor. Tudo igual. As mesmas caixas ainda da primeira mudança. Ele entra no quarto principal. Vou atrás.
- Meus livros! (Havia uma felicidade em minha voz. Felicidade de reencontro). Posso pegá-los?
-Hum... quais você vai querer?
- Os meus, uê! Por quê?
- Sabe... (sentou na poltrona que já foi minha) Tens uns aí que gosto... Queria ficar com eles. Quer me vender?
- Aff... Não vou vender nada pra você, né? Te deixei um apartamento, vou te vender um livro? Me diz qual? Fica pra você...
- Gosto da estante cheia...
- Você os lê? Usa para algo?
- Li todos. Alguns, mais de uma vez. Levo-os comigo quando vou tocar. Ah! Na penúltima gaveta tem umas coisas suas. Enfiei o que ficou espalhado lá.
- Mé dá uma caixa, por favor. Vou colocar as minhas coisas dentro pra levar embora...
Abri a gaveta. E tive dúvidas se tudo aquilo era meu. Um dia foram, mas, não são mais... Roupas que não me servem (porque meu corpo mudou, porque meu gosto mudou (Haleluiah), porque, principalmente, como já disse, cada objeto carrega uma história).
- Me dá uma sacola? Tem umas coisas que não quero levar. Vou jogar fora. Tudo bem?
- Eu guardei porque achei que eram importante para você. Mas não é, né? Tanto que você demorou mais de 3 anos para vir buscar!
- Não faz assim! Você tá misturando tudo. Eu vim buscar meus livros. Meu tablet. Cadê meu tablet?
- Vendi!
- Como assim?
- Vendi, uê! Achei que você não voltaria! 3 anos, Ludmila! Vendi o tablet, os brincos, os anéis e tudo que tinha valor comercial!
- Era tudo meu! Aff... Por que você não se desfez de tudo, então? Me poupava o trabalho de vir aqui e jogar essas porcarias fora!
- Não são porcarias! São suas coisas! Suas! E eu as guardei.
- Eu vou levar meus livros, ok?
- Não. Os livros, não. Eles fazem parte da minha biblioteca agora.
(silêncio)
- Eu quero a biografia do Ozzy. Tudo bem?
- Poxa... Esse livro a gente leu nas férias, depois da morte da minha mãe. A gente lia ao mesmo tempo...
- Chega! Fica com tudo. Com todos os livros. Essas coisas aqui (pus tudo o que estava na gaveta num saco plástico) eu vou por na lixeira do prédio. OK?
- Desculpa. De novo.
- Eu não guardo nada. Nem objetos, nem lembranças, nem sentimentos. Ficou tudo lá trás. Eu queria meus livros, sinto falta deles, mas acho que eles serão mais úteis para você! não tem problema. Eu monto uma biblioteca nova. Você pode abrir a porta pra mim?
- Ficou aberta, Ludmila.
- Então, tchau, cuide-se e até... (nunca mais (em pensamento))
Atravessei o corredor, a sala e desci a escada com o saco plástico na mão. Deixei-o na lixeira do prédio. Ouvi passos atrás de mim. Ele desceu para abrir o portão manual. Atravessei o portão.
- Tchau. De novo. Cuide-se.
- Agora é um adeus, certo?
- Certo. Adeus!
- Fica com Deus. (foram as últimas palavras dele, antes de trancar o portão)