terça-feira, 18 de novembro de 2014

Destino da viagem, enfim, escolhido!

Numa outra postagem, escrevi que buscava um lugar para passar as férias. Minha principal fonte de pesquisa foi o guia Viajante pela América Latina. Eu o li praticamente de início ao fim, pois queria que minha viagem fosse muito bem planejada.
Num primeiro momento, encantei-me por três países, aqui listados em ordem alfabética e não por preferência: Argentina, Chile e Uruguai. E os motivos eram simples: Argentina pela proximidade e facilidade, Chile pelos vinhos (hihihi) e Uruguai por compromissos profissionais futuros.
Foquei minhas pesquisas nesses três países. Peguei com amigos guias de viagem emprestados, mergulhei no mundo virtual atrás de informações turísticas, gastronômicas e econômicas dos meus escolhidos.
Após duas semanas, Chile havia sido eliminado. E sua eliminação ocorreu única e exclusivamente pelo tempo de voo partindo de São Paulo. Como disse em postagem anterior, ainda não consigo ficar mais que cinco horas (infelizmente) dentro de um avião. Porém, comprometo-me a, assim que conseguir permanecer dentro de um avião um pouco mais de tempo, conhecer o norte do Chile, nem que seja num feriado prologado (Carnaval, quem sabe...)
Meu destino estava se desenhando de um jeito bastante agradável. Havia a real possibilidade de visitar os dois países numa viagem só. Pensei em ir pela Argentina e voltar pelo Uruguai, fazendo a conexão entre os dois atravessando o Rio da Prata, desembarcando em Colônia Del Sacramento (local do compromisso profissional futuro) e seguindo viagem de ônibus até Montevidéu. O problema aqui era o preço das passagens. Ir por um e voltar por outro encarecia consideravelmente a viagem. Teria que redesenhar meu trajeto.
Mais pesquisa, mais mergulhos na internet, comprei alguns guias e resolvi fazer uma viagem sanduíche: Argentina-Uruguai-Argentina, usando o Buquebus como conexão entre eles. Além de mais barato, evito o 'transtorno' de ter que encarar avião.
Por um período, eu, que gosto muito de ler, abandonei a literatura e me entreguei aos guias de viagem. Aonde ia, carregava-os comigo. Confesso que fiquei um pouco monotemática, mas me envolvi, empolguei-me. Vi-me motivada, pela primeira vez após a morte do meu pai, a realizar algo. E as pessoas ao meu redor viram isso. Tanto que uma amiga minha se interessou e se "ofereceu" para ser minha companheira de viagem. O mesmo ocorreu com uma prima. Por sorte, conseguimos passagens nos mesmos voos (ida e volta) apesar dos assentos bem distantes no avião e consegui trocar os hotéis que antes eram single para triplo, sem para multa.
O que falta agora é adaptar o roteiro ao gosto da três para que não fique ninguém de bico durante a viagem. Serão 12 dias. 3 destinados a Buenos Aires, 3 a Colônia e o restante gastos nos arredores da capital portenha e em deslocamento. Ficaremos em hostel, procuraremos os lugares mais baratos para comer e para nos divertir. Estamos preparadas para caminhar muito, pedalar se for preciso e, principalmente, experimentar novas possibilidades. Eu, particularmente, viajando sozinha ou acompanhada, permaneço com o mesmo foco: (re)construir – e ampliar – o meu mundo.


Embarcaremos em 52 dias!

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Quando o "nosso" vira o "meu + seu"...

3 anos, 3 meses e 13 dias depois, resolvi que já era hora de 'resgatar' minhas coisas. Liguei para saber se poderia aparecer naquela que, um dia, já foi a 'minha casa'.

- Aconteceu algo? Tá tudo bem? (voz assustada)
- Oi. Sou eu. (silêncio) Eu esperava um alô. Mas, sim, tá tudo bem.
- Vi seu nome no visor, fiquei preocupado. Caramba! Imaginei coisas ruins.
- Foi mal. Tá tudo bem, sim. (silêncio)  Queria minhas coisas de volta. Posso ir pegá-las?
- Suas coisas? De que coisas você está falando? Do apartamento?
- Não. Dos livros, dos CDs, das roupas e do tablet... Acho que foi só o que ficou, né?

Pronto! Fiz a pergunta errada. A respiração do outro lado da linha se alterou. Pude imaginar a fúria naquele par de olhos azuis. Não! Não foi só o que ficou. Não para ele. Em cada objeto deixado para trás ficou uma história. (A penúltima gaveta da cômoda deve guardar um monte delas... Será?)

Toquei o interfone. Prédio antigo e sem porteiro. Portão manual. Ele é obrigado a descer. Não há fúria nos olhos azuis. Há desconfiança. Ele me estende a mão.

- Oi. Tudo bem com você?
- Tá. Sobe.

Um lance de escadas. Porta do apartamento aberta. Por alguns segundos contemplo a sala. Está tudo exatamente igual. Não há saudades. Não há boas lembranças. Há, apenas, um ar fúnebre, apesar do colorido do ambiente (laranja da parede, verde do sofá, roxo e cinza da cortina - casa de daltônico). Aqui jaz algo... Ou alguém... Sinto-me estranha. Uma estranha num ninho que já foi meu. Isso me causa um arrepio. Entro. Atravesso a sala. Estou seguindo-o. Passo pelo corretor. À esquerda, a cozinha. Tudo igual. À direita, o quarto menor. Tudo igual. As mesmas caixas ainda da primeira mudança. Ele entra no quarto principal. Vou atrás.

- Meus livros! (Havia uma felicidade em minha voz. Felicidade de reencontro). Posso pegá-los?
-Hum... quais você vai querer?
- Os meus, uê! Por quê?
- Sabe... (sentou na poltrona que já foi minha) Tens uns aí que gosto... Queria ficar com eles. Quer me vender?
- Aff... Não vou vender nada pra você, né? Te deixei um apartamento, vou te vender um livro? Me diz qual? Fica pra você...
- Gosto da estante cheia...
- Você os lê? Usa para algo?
- Li todos. Alguns, mais de uma vez. Levo-os comigo quando vou tocar. Ah! Na penúltima gaveta tem umas coisas suas. Enfiei o que ficou espalhado lá.
- Mé dá uma caixa, por favor. Vou colocar as minhas coisas dentro pra levar embora...

Abri a gaveta. E tive dúvidas se tudo aquilo era meu. Um dia foram, mas, não são mais... Roupas que não me servem (porque meu corpo mudou, porque meu gosto mudou (Haleluiah), porque, principalmente, como já disse, cada objeto carrega uma história).

- Me dá uma sacola? Tem umas coisas que não quero levar. Vou jogar fora. Tudo bem?
- Eu guardei porque achei que eram importante para você. Mas não é, né? Tanto que você demorou mais de 3 anos para vir buscar!
- Não faz assim! Você tá misturando tudo. Eu vim buscar meus livros. Meu tablet. Cadê meu tablet?
- Vendi!
- Como assim?
- Vendi, uê! Achei que você não voltaria! 3 anos, Ludmila! Vendi o tablet, os brincos, os anéis e tudo que tinha valor comercial!
- Era tudo meu! Aff... Por que você não se desfez de tudo, então? Me poupava o trabalho de vir aqui e jogar essas porcarias fora!
- Não são porcarias! São suas coisas! Suas! E eu as guardei.
- Eu vou levar meus livros, ok?
- Não. Os livros, não. Eles fazem parte da minha biblioteca agora.

(silêncio)

- Eu quero a biografia do Ozzy. Tudo bem?
- Poxa... Esse livro a gente leu nas férias, depois da morte da minha mãe. A gente lia ao mesmo tempo...
- Chega! Fica com tudo. Com todos os livros. Essas coisas aqui (pus tudo o que estava na gaveta num saco plástico) eu vou por na lixeira do prédio. OK?
- Desculpa. De novo.
- Eu não guardo nada. Nem objetos, nem lembranças, nem sentimentos. Ficou tudo lá trás. Eu queria meus livros, sinto falta deles, mas acho que eles serão mais úteis para você! não tem problema. Eu monto uma biblioteca nova. Você pode abrir a porta pra mim?
- Ficou aberta, Ludmila.
- Então, tchau, cuide-se e até... (nunca mais (em pensamento))

Atravessei o corredor, a sala e desci a escada com o saco plástico na mão. Deixei-o na lixeira do prédio. Ouvi passos atrás de mim. Ele desceu para abrir o portão manual. Atravessei o portão.

- Tchau. De novo. Cuide-se.
- Agora é um adeus, certo?
- Certo. Adeus!
- Fica com Deus. (foram as últimas palavras dele, antes de trancar o portão)