Outubro
é um mês muito phoda pra mim…
Meu
pai morreu num dia 28, porém duas semanas antes eu morria para ele…
Quando
o câncer do meu pai – que começou no pâncreas – atingiu o SNC,
ele meio que 'enlouqueceu'… Ele movimentava as mãos no ar como se
enrolasse fios em motor ou escrevia sobre uma prancheta imaginária
relatórios dos seus alunos do SENAI, mas não se lembrava de mim…
Ele acariciava a cabeça de um cachorro imaginário que ficava
sentado em seu leito no hospital, mas não se lembrava de mim... Ele
dizia que ia embora para Nova Iorque onde teria milhões de dólares
guardado numa conta e que iria aproveitar a vida, mas não se
lembrava de mim… Ele ficou por mais de 48 horas acordado, falando
sem parar e nem os remédios o acalmavam, mas não se lembrava de
mim… E, quando ele dormiu, não acordou mais, sem se lembrar de
mim!
Aquele
foi um período muito, muito difícil para mim. Doía tanto ele não
me reconhecer que parei de ir ao hospital, aonde eu ia todos os dias
desde antes do câncer ser descoberto. Só voltei ao hospital após
uma 'conversa com Deus', quando entendi que o melhor para o meu pai
era partir… Eu pedi a Deus que levasse meu pai, para tirá-lo
daquele sofrimento do hospital (porque nessa altura, ele, além de
estar ligado a uma máquina de morfina, tinha os rins parados e
respirava com auxílio mecânico).
Saber
que o melhor para meu pai era partir não facilitou muito as coisas
para mim. Cada dia que eu saía do hospital era uma 'briga com Deus'
por não ter sido atendida. Nem na cura, nem no descanso do meu pai…
Foi aí que eu desabei. Passei mal e fui parar no hospital. Achei que
iria morrer. Naquele dia, espiritualmente, rolou uma despedida...
Até
outubro de 2013 acabar muita coisa estranha aconteceu. Até hoje tem
muita mágoa daquele período, das quais ainda não consegui me
desfazer e que não tenho intenção de expor aqui…
Esse
ano está sendo muito mais difícil atravessar outubro do que foi ano
passado. Tenho pensado muito mais no meu pai. Tenho sentido uma
saudade tão intensa dele que não sei como lidar. Nem com ela, nem
com quem me pergunta o que eu tenho…
Nos
últimos dias eu tentei falar sobre isso com alguém, mas ouvi que
'era besteira e que passaria'… Guardei pra mim e, hoje, consegui
escrever…
Escrever me faz bem. Muito bem. Mas, ser abraçada faz com que eu me sinta ainda melhor... tá?