Com a morte do meu pai em outubro do ano passado, eu me coloquei no automático e me arrastei até o fim do ano. Depois, me arrastei pelas férias. Só em fevereiro, com o retorno ao trabalho (e com a volta das crises de TGA), eu me dei conta de que precisava fazer algo por mim. Mas, estar no automático era tão cômodo que continuei relutando para não fazer nada... A zona de conforto estava tão acolhedora que parecia ainda ter meu pai comigo. O TGA piorou, as relações familiares se desgastaram ainda mais, o trabalho deixou de ser o lado saudável da minha vida e... eu continuava no automático!
Como escrevi
numa outra postagem algo aconteceu e voltei a escrever. E a fazer planos. E um desses planos era de uma viagem.
Enquanto planejava a viagem, fui atrás de diversos guias. Lia-os. Devorava-os. Até que uma atração me chamou a atenção... E, mudou meu ano e, definitivamente, minha vida.
"Tren a las nubes" - Salta, Argentina. Viagem de, aproximadamente, 15 horas, percorrendo 434 km, atingindo uma altitude de 4.200 m. O trem passeia entre as montanhas da Cordilheira dos Andes, atravessando a Quebrada Del Toro, até o Viaducto La Polvorilla. Fica por lá cerca de 40 min e retorna. Além da paisagem, o que mais oferece? Nada! É só isso. São 15 horas (ida e volta) dentro de um trem, vendo a paisagem passar, enquanto o trem sobe, sobe, sobe... até atingir o seu destino.
E como um negócio desse mudou minha vida? Explico:
Em um dos guias que li, infelizmente não me recordo mais em qual, a descrição do trem, da linha férrea e do passeio em si é tão perfeita - e bucólica - que me encantou. Foi isso que me aconteceu? Não! Há, na descrição do passeio, um trecho que diz algo mais ou menos assim:
"Atingindo certa altura, a locomotiva não tem mais força para puxar os vagões. O trem para. A locomotiva manobra, dirigindo-se para o fim da fila dos vagões e, a partir daí, ao invés de puxar, a locomotiva empurra os vagões, obrigando-os a subir até o ponto final do passeio."
Pronto! Aquilo revirou-me por dentro. Eu me vi naquela locomotiva. Eu era aquela locomotiva. Quando não estava puxando algo/alguém 'pra cima' estava empurrando-os para o alto. Não importava o sacrifício. Fazia isso com meus alunos, com meus amigos, com meus parentes e com meu namorado.
Aquela história mexeu tanto comigo que na aula seguinte já deixei claro aos meus alunos que minha postura com eles iria mudar. A partir dali não levaria ninguém para o alto comigo. Só quem quisesse. E quem não fosse 'peso em excesso'. Pedi o desligamento de um deles. Fiz relatório desfavorável (porém realista) e impedi a efetivação de outros.
E, assim, como uma locomotiva, fui 'dando cabo' a todo peso extra que eu vinha puxando/empurrando.
Coloquei fim num relacionamento que já deveria ter acabado a muito tempo. Fiz por ele muito mais que deveria. E passei a avaliar o porquê de não ter dado certo. Aceitei que o que era, até então, preconceito dos outros, na verdade, era diferença demais a ser sustentada. Eu, na segunda faculdade, com duas pós concluídas; ele, ensino médio. Eu, carreira profissional estruturada; ele, dono de boteco, lavando copo e aguentando bêbado para pagar as contas no fim do mês. Eu, querendo conversar sobre filosofia, tecnologia ou qualquer assunto que fosse; ele, sobre futebol e bunda. Eu, mundo; ele, Suarão... Não dava mais pra empurrá-lo para o alto, nem puxá-lo para perto de mim. Havia uma distância grande demais. Deixei-o no meio do caminho.
Ao deixá-lo, fui 'obrigada' a deixar alguns amigos também, que junto ao namorado, faziam peso extra.
Isso abriu espaço aos amigos que são leves e me fazem bem! Aqueles que, quando eu preciso, podem dar aquele empurrãozinho para eu continuar em direção ao topo (hahaha).
E, o melhor! Livrar-me de excesso de peso, do esforço desnecessário, tanto na vida profissional quanto pessoal, deixou-me muito mais leve e trouxe-me novas parcerias. Cinco meses após esse trem passar por mim, estou "bem, obrigada".
Obs: Estou indo para a Argentina, mas não vou a Salta. O trem não funciona de dezembro a março. Uma pena, pois eu queria presenciar isso aqui, oh:
o trem que mudou minha vida